Por uma cultura cibereubiótica,
ou O avatâra e a cisão de todas as religiões
Se há algum mérito no filme conto de fadas de James Cameron, é ter trazido à cena uma saudável revitalização para a arcaica terminologia hindu avatar, cuja apropriação mais clássica em nossa língua aponta para a correta transliteração sânscrita avatâra, literalmente “descenso”. Ainda que mitologia e doutrina hinduístas não nos falem em um Céu como esfera superior onde convivem os deuses como a tradição cristã apregoa1, a ideia do “descenso” corresponde à encarnação ou manifestação divina sobre um ente vivo. Assim é com os dez avatares de Vishnu: Matsya (o peixe), Kurma (a tartaruga), Varaha (o javali), Narasimha (o leão ou homem-leão), Vamana (o anão), Parashurama (o lenhador ou o homem com o machado), Rama (o arqueiro), Krishna (o amante ou o amoroso), Buda (o sábio) e Kalki (o espadachim montado a cavalo ou o centauro). Como princípio da preservação e do equilíbrio, é Vishnu quem, da trimurti, se manifesta para recuperar a humanidade. De suas dez encarnações conhecidas, a décima ainda não se realizou. Ela é referida como o Buda Branco do Ocidente ou Maytreia em diversas tradições.
Não há, no entanto, na noção de avatâra, uma compreensão desta manifestação como fenômeno de incorporação mediúnica, pelo contrário, o movimento é entendido originalmente como uma espécie de “desgarramento”, uma vez que indica a encarnação de um ser que já ultrapassou Samsara, ou a roda dos renascimentos. Este ser se manifesta única e exclusivamente por abnegação — na linguagem hindu, para restaurar Dharma. O avatâra, portanto, desce de um plano superior, seu local de refúgio e repouso2, e ocupa lugar entre os mortais, apresentando-se como Iluminado ou Ungido (como Messias, na tradição hebraica). Alguma semelhança com historietas da cultura pop contemporânea, como o Superman de Kripton, o Neo de Zion ou mesmo Luke Skywalker, não são mera coincidência, diria Christopher Vogler. Menos ainda, na linha de argumento jungueana, a recorrência desses heróis em mitos como a epopeia do Rei Arthur ou a odisseia do Rei Ulysses. São todos eles messias ou “libertadores”.
De acordo com o inevitável Glossário Teosófico, de Mme. Blavatsky, há dois gêneros de avatares: “os nascidos de uma mulher” e os “sem pai”. Ao primeiro tipo correspondem aqueles que alcançam sua avatarização ao longo da vida, atingindo plena consciência de sua missão3 na Terra. Os “sem pai”, ou anupâdaka, são manifestações ainda mais esplendorosas, não sujeitas a causa e efeito, e, por isso mesmo, geralmente descritos como dotados de poderes extraordinários (vide, p. ex., a expressão de Krishna no Mahâbhârata, que é apropriada pelo catolicismo quando da preconização do dogma a respeito da virgindade de Maria4). Mas, para além do significado explícito no “descenso” avatárico, a interpretação do termo conserva uma ambiguidade que a aproxima do animismo espírita, dando margem à compreensão do avatâra como transmigração de nous, a essência5, entre corpos materiais distintos. Assim, o filme de Cameron, como o mais interessante conto homônimo de Theóphile Gautier, Avatar — escrito ainda em 1857 — nos dão clara dimensão deste processo.
O avatar (ou avatâra) é sempre uma espécie de guia — não necessariamente um guia apenas espiritual (vide os episódios nômades de Moisés, Noé, Manu Vaivaswatta etc.). Ele restaura Dharma e resolve conflitos internos, seja através do amor (Krishna), da sabedoria (Buda) ou mesmo da rebeldia, que é também uma de suas tônicas6. O avatâra, portanto, está fora de Samsara, ou acima do Bem e do Mal. Ele é semente (semine) e também “colheita” (messis), está relacionado ao início e ao fim de um Aeon ou Era, e por isso é associado frequentemente a episódios cósmico-astrológicos, geológico-naturais ou sócio-antropológicos. A passagem de Jesus o Cristo ao desenhar o símbolo de um peixe na terra, p. ex., é comumente associada a uma indicação clara de que era ele um avatâra da Era de Peixes. Também no Novo Testamento, a ressurreição de Jesus é, por muitas correntes, entendida como prenúncio de sua reencarnação. A lenda arthuriana, que por sua vez se apropria de muitas tradições bíblicas cristãs, traduzindo-as para o universo celta-pagão, aponta o ressurgimento do rei bretão na tão célebre quanto folclórica frase lapidar:
Hic iacet Arthurus, Rex quondam, Rexque futurus.
No Brasil e em Portugal, o episódio cultural mais próximo nos leva direto ao Sebastianismo, movimento transfigurado nO Quinto Império, do Padre Antônio Vieira, como na obra de Fernando Pessoa e também de Ariano Suassuna. A figura do avatâra, portanto, traz conforto às almas oprimidas, que apaziguam-se em esperá-lo. Sua ausência, por outro lado, provoca a massa a se insurgir, em verdadeiro Estado de Natureza — propalado Caos que se situa no extremo oposto à Ordem do Absoluto ou à Verdade, mas sobretudo um estado de “desencantamento”, em que o controle (kiber) ou a mediação não são possíveis.
O avatâra, como Iluminado — termo que faz referência direta às Luzes do Iluminismo, mas que em nossa opinião soa mal empregado, uma vez que avatares não são “Iluminados” mas “Luminescentes” ou “Luminosos” –, cumpre o papel sacerdotal correspondente ao papel temporal dos Reis e Governantes. Não à toa em tantas civilizações tivemos associados estes dois poderes (geralmente atribuindo-se ao imperador uma descendência direta da divindade), como é o caso das dinastias faraós egípcias, do Rei-Sol francês ou mesmo das teocracias contemporâneas no Irã e no Vaticano. A figura do avatâra é usada mesmo nos Estados laicos, como é o caso da emblemática reconstrução da Inconfidência Mineira pela República brasileira, fiando-se na imagem de Tiradentes como o Cristo tupiniquim. Nesse sentido, o Herói é o equivalente claro do avatar, pois é ele quem aparece como Libertador.
Note-se, ainda, que tradições monoteístas não são incompatíveis com a ideia de sucessivas encarnações avatáricas. É assim não só com a notícia da ressurreição de Jesus o Cristo, mas também com outras religiões, como o próprio Islamismo. Os muçulmanos crêem em Allah o Todo-Poderoso como Deus único e verdadeiro (nas palavras dos fiéis, o Misericordioso e Misericordiador), mas pregam a encarnação de uma linha contínua de profetas, relacionando inclusive Jesus como um deles, ao lado do evidente Maomé7. Outras doutrinas como a da Igreja Messiânica (que acredita no papel dos Mensageiros, como seu fundador Meishu-Sama) ou a da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, cujos seguidores são conhecidos como mórmons (e acreditam no ressurgimento de Jesus de tempos em tempos, tendo a última ocasião para esta aparição ocorrido na América do Norte, conforme relatos em sonhos do profeta8 Joseph Smith Jr.), têm forte relação com o messianismo como é de se supor. À primeira vista, a espera (ou “esperança”) pelo avatâra é fator de união e coesão religiosa. Ousamos dizer, porém, que este movimento é aspecto constituinte da própria noção de religião, e, ao contrário do que possa parecer, a preconização do avatâra costuma cindir ao invés de harmonizar as doutrinas religiosas.
Desde antes da teosofia novecentista, diversos pensadores já apontavam para a raiz etimológica da palavra religião, cuja expressão mais aceita é oriunda do latim religare, ou “religar”. Em famoso ensaio que explica por que a teosofia não seria exatamente uma religião no sentido moderno, Mme. Blavatsky elucida a ideia de que as religiões se aproximam perigosamente do dogma, em detrimento do pensamento livre e questionador, em operação filosófica próxima àquela feita pelo cabalista Eliphas Lévi em outro clássico. Ela cita o historiador (e pastor protestante) Thomas Carlyle, para quem a religião é “um sentimento sábio e prudente baseado em cálculos simples”, para reforçar a compreensão do lema maior adotado pela S.T. enquanto em suas mãos, o ilustre
there is no religion higher than truth.
Não há religião superior à Verdade, porque em essência a Verdade é o Conhecimento (jnana, dentre os yogas hindus). O objetivo expresso no pioneiro slogan teosófico era o de refutar o obscurantismo atribuído ao Conhecimento Oculto pelos detratores positivistas da época. Em constante esforço para afirmar-se, mesmo a linguagem utilizada por Blavatsky era por vezes pretensamente racional e científica, abusando de recorrências à etimologia, à mitologia comparada, à astronomia e a modelos teóricos matematicamente elaborados para auxiliar seus discípulos na apreensão de complexos sistemas cosmogônicos9.
A questão que nos deparamos, contudo, é: quando uma religião se torna efetivamente uma religião? A resposta de Blavatsky é clara: a religião na acepção primeva do termo não admite mediação por procuração, nem salvação através do derramamento de sangue inocente, tampouco o trabalho como busca de uma recompensa na Eternidade10. Para ela, não há religião superior à Verdade simplesmente porque a Verdade é a própria religião. Nas palavras dela, trata-se de uma Wisdom-Religion ou “Religião Sabedoria”. É o Conhecimento que “religa” o humano ao divino, e, nesse sentido, todo e qualquer indivíduo é plenamente capaz de avatarizar-se, não havendo inspiração messiânica de qualquer espécie.
Na história da Sociedade Teosófica, no entanto, é conhecido o episódio da Ordem da Estrela do Oriente, em que, após a morte de Helena Petrovna Blavatsky e de Henry Steel Olcott, a então presidente do movimento, Annie Besant, juntamente com o ex-bispo anglicano Charles Webster Leadbeater apresentaram ao mundo o jovem Jiddu Krishnamurti, rapaz de origem hindu descoberto em uma praia e que teria despertado em Leadbeater a visão de que ele (Krishnamurti) viria a se tornar o próximo instrutor da humanidade11, apontado nas tradições hinduístas como Lord Maitreya, precisamente o décimo avatar de Vishnu.
A Ordem da Estrela do Oriente foi fundada em 1911 e dissolvida pelo próprio Krishnamurti diante de mais de 3 mil membros em sessão plenária no dia 2 de agosto de 1929. Na ocasião, o contundente e coerente discurso do líder espiritual que renunciava ao papel que lhe cabia retomava lições legadas pela fundadora da S.T., e lembrava que
A Verdade não deve ser trazida à força para baixo, mas antes o indivíduo é que deve esforçar-se por ascender a Ela.
A trágica fala de Krishnamurti se reporta ao entendimento de que a Verdade12 é infinita e ilimitada. Se não há, portanto, religião superior à Verdade, e a Verdade é inalcançável, não resta alternativa ao jovem guru se não admitir, não sem tamanha ousadia, que acreditar que sua organização expressa a Verdade é mero instinto religioso. “No momento em que se segue alguém, se deixa de perseguir a Verdade”, diz. Então para que uma organização?, é a pergunta que ecoa no salão na cidade de Ommen, Holanda. As palavras de Krishnamurti, como ele mesmo frisa, são duras mas são generosas e amorosas. Não há sentido em organizações ou mestres ou guias espirituais. Não há sentido em se seguir um Libertador, porquanto isto é também aprisionar-se.
Contextualizada, a crítica de Krishnamurti ressoa diretamente sobre a defesa de Besant à Ordem da Estrela. Como presidente da Seção Esotérica da S.T., é Annie Besant quem aceita o conselho de Leadbeater para a tutela de Jiddu Krishnamurti e seu irmão em Londres. C. W. Leadbeater, diga-se, havia sido há cerca de um ano readmitido como membro da Sociedade Teosófica, após ter escolhido desvincular-se a fim de se concentrar no processo que sofria por abuso de menores e atentado ao pudor. Sem Blavatsky, sem Olcott, diante dos conflitos internos com a Seção Americana, presidida por William Q. Judge13 (um dos fundadores originais da S.T.) e que viria a cindir-se como Sociedade Teosófica da América, Besant se viu necessitada de apoio para seguir no comando e unir o movimento ocultista em torno de uma causa comum. A experiência de Leadbeater como bispo e a solução encontrada no endeusamento de um jovem hindu pode ter sido uma atitude desesperada para ganhar força, ou ao menos ganhar tempo. Talvez a escolha errada, já advertida anos antes por aquela que é tida como a última carta dos Mahatmas após a morte de Mme. Blavatsky, publicada pela primeira vez no compêndio organizado por Jinarajadasa14 e fartamente acusada de ser uma nova fraude. Naquelas páginas, escritas nove anos após a morte de HPB, o Mestre Koot-Hoomi textualmente questionava Besant, “Somos propiciadores e adoradores de ídolos?” Reclamando da postura que criava uma atmosfera de veneração sobre Mestre Morya, Upasika (Blavatsky) e ela própria (Besant), Koot-Hoomi citava um provérbio tibetano, segundo o qual “a credulidade engendra credulidade e culmina em hipocrisia” e afirmava que
A S.T. e seus membros estão lentamente fabricando um credo.
Fato é que, mais tarde, a farsa do caso Krishnamurti depôs contra o trabalho de HPB em definitivo, permitindo que velhos rivais e detratores encontrassem agora argumento suficiente para desacreditar a teosofia como um todo.
Pouco se sabe ou pouco se tem estudado até o momento, porém, sobre a grande quantidade de dissensões experimentada pelo movimento teosófico quando da apresentação de Krishnamurti. Não só a teosofia espanhola, na figura do eminente polígrafo Mario Roso de Luna, mas várias outras correntes como a Antroposofia de Steiner e mesmo a Eubiose (então ainda sob a égide de Dhâranâ Sociedade Mental e Espiritualista), do professor Henrique José de Souza, desgarram-se das asas abrangentes da S.T. por divergências públicas em âmbito privado. A postura de Krishnamurti, se não lhes conferiu razão na trajetória de alta capilaridade do movimento teosófico, ao menos critica profundamente a noção de uma Religião Mundial apregoada por Besant em uma de suas leituras. Parece claro que apresentar a Sociedade Teosófica como a Religião Mundial — ou sua precursora legítima — está em dissonância com o lema anterior blavatskyano, e aqui Krishnamurti acerta em cheio em seu discurso. Tão em cheio que parecia antecipar movimento semelhante ocorrido no Brasil décadas mais tarde, pois que ao fim de sua vida o professor Henrique José de Souza já profetizava o retorno do avatâra Maitreya para o exato ano de 2005. Não foram poucos os discípulos da Sociedade Brasileira de Eubiose que esperaram a chegada de um ser luminoso sobre um cavalo branco em local e hora determinados. No entanto, aqui de novo a lição parece ser a mesma. Esperar pelo avatâra é não realizá-lo. Preparar-se para ser liberto é não libertar-se. Aí está a dubiedade intrigante do Ocultismo, marcante em quase todos os líderes espirituais.
Alice Bailey, p. ex., é outra folha desgarrada da Sociedade Teosófica. Por discordar de alguns princípios, separa-se amigavelmente da instituição, conservando-se fiel, segundo ela própria, aos ensinamentos de Mme. Blavatsky. De família anglicana britânica, Bailey participou de ações da YMCA e do exército do Reino Unido, tendo chegado aos Estados Unidos em 1907, quando tomou então contato com o esoterismo e a teosofia. Afastando-se razoavelmente da S.T. a partir de 1919, Bailey passa a escrever por conta própria e é talvez, mais do que a própria HPB, uma das principais influências do misticismo presente na contracultura americana, em meados da década de 1960. Uma de suas peças mais interessantes e apropriada a nosso tema é o breve artigo A nova religião mundial15 em que descreve
Religião é o nome dado ao apelo invocativo da Humanidade e à resposta evocativa da Vida Maior àquele apelo.
Tida por correntes teosóficas como excessivamente cristã (vide o título O reaparecimento do Cristo), Bailey dizia que Jesus o Cristo havia se manifestado justo para encerrar o enfoque emocional atribuído à religiosidade, conferindo-lhe a partir de então o necessário aprimoramento racional. Nesse ponto, seu argumento poderia ser confundido com o dos próprios positivistas que ironicamente fundaram e fundamentaram sua religião particular, através da Igreja Positivista. Mas Bailey segue dizendo que, além de ser meticulosamente planejada, como ciência da invocação e da evocação naquilo que se refere à humanidade, tal religião de plataforma universal repousará sobre o princípio da Aproximação Divina, categoria inscrita no apelo pela extinção dos mediadores preconizado anteriormente por Blavatsky. O problema maior nesta concepção parece ser o da incoerência de Bailey ao render-se também ao messianismo, apontando a volta do Cristo para a Era de Aquário, expressão que ela torna mundialmente reconhecida e que tem rebatimento na expressão cultural contemporânea através de outro movimento famoso, o New Age.
A Aproximação Divina (“aproxima-te Dele e Ele se aproximará de ti”, segundo Bailey), todavia, em muitos sentidos está de acordo com a Religião-Sabedoria de HPB, ou, diríamos ainda, com a Eubiose, do professor Henrique José de Souza. Em todos os casos, trata-se de garantir ao indivíduo acesso direto à Verdade, colocando-o mesmo de fora do aprisionador sistema de mediações imposto por sucessivas correntes messiânicas à espera de um demiurgo manifestado. Parece, contudo, que não há remédio para a unificação e organização do movimento ocultista. Pois para que ganhe força é necessário corromper-se em religião. E, por sua capilaridade, sua falta de limites e contornos, como advertia Krishnamurti, está posto também um problema de confiança e tolerância. Isto explica parcialmente a questão que inquieta Dion Fortune16. Ela diz que
Lamento pela hipotética pessoa que tem a tarefa de organizar o movimento ocultista, pois os ocultistas das diferentes escolas não podem ser induzidos a cooperar. Toda técnica que difere da que eles utilizam é suspeita; todo contato estranho é negro. A grande maioria dos líderes das escolas que conheci senta-se cada qual em seu próprio círculo de luz e amaldiçoa tudo o mais. Como a velha senhora que observava o filho desfilar com os soldados, [e exclama]: ‘Estão todos em passo errado, menos o meu João’. Eu sonhei outrora com uma federação de sociedades ocultas com uma convenção anual, mas logo compreendi que ela era impraticável. Se os ocultistas não podem ser convencidos a se organizar para servirem aos seus próprios interesses, é muito improvável que eles se organizem para servir aos de outros.
Alice Bailey, criticada por teosofistas como pseudo-ocultista exatamente por apregoar a volta do Cristo, já sabia disso. Krishnamurti, que reclamava da perspectiva crítica de seus seguidores, também. Mesmo o professor Henrique José de Souza, que não se furtou a sonhar com uma “frente única espiritualista”, aprofundou-se nesta aparente contradição. Afinal, como há múltiplas verdades e não apenas Uma, faz pouco sentido que se persiga uma religião mundial, ainda que o sentimento de religação seja um só. Se todos e não apenas Um, devemos nos religar, então, parafraseando o Adepto, para que um avatâra?
- Tal e qual o Olimpo grego ou a Asgard escandinava. ↩
- Godheim na mitologia teutônica, ou Pralaya, no próprio hinduísmo. ↩
- Ressalte-se a correlação estreita entre a etimologia dos termos missão, missa, messias e, ainda, messis (lat.), “colheita”. Cf. o seminal H. P. Blavatsky, As origens do ritual na igreja e na maçonaria. ↩
- Para mais detalhes sobre a ressignificação desse arcabouço mítico, cf. Blavatsky, op. cit. Contemporaneamente, o filme lançado em circuito independente e alternativo, Zeitgeist aborda a mesma questão a partir de outro olhar. ↩
- Já falamos brevemente sobre transmigração ou reencarnificação em oportunidade anterior. ↩
- Teremos oportunidade de tratar deste assunto com calma futuramente. Por ora, basta lembrar a variedade semântica de interpretações atribuídas à expressão de Lúcifer em diversas passagens históricas e mitológicas. ↩
- Deixemos para reflexões posteriores uma diferenciação mais clara a respeito da terminologia adotada pelo maometismo. Aqui ressaltamos apenas que os “profetas” islâmicos não são equivalentes aos “profetas” cristãos, uma vez que estes cumprem o papel de Yokanãs, arautos ou anunciadores — como era o próprio João Baptista, ou como não deixaria de sê-lo o mais famoso de todos Michel de Nostradamus. ↩
- V. nota acima. ↩
- C. Jinarajadasa p. ex. elabora sobre estas explicações uma série de pranchas utilizadas nas lojas da S.T. durante sua gestão e que, mais tarde, dão origem e recheio ao livro Fundamentos da Teosofia. ↩
- A frase original de HPB (op. cit.) é
no mediation by proxy, no salvation through innocent bloodshed, nor would they think of ‘working for wages’ in the One Universal religion.
- Teria Leadbeater pretendido para si o lugar de honra de um yokanã? ↩
- Vale reafirmar aqui que o uso da expressão em maiúscula não confere à Verdade um tom de unicidade absoluta. Sabe-se que são múltiplas as verdades. O objetivo da ênfase, entretanto, é menos dogmatizá-la e mais reforçar-lhe a paridade com o Conhecimento, a Sabedoria ou a Ciência, todas expressões múltiplas e que admitem certo tom de construção coletiva e gradual. ↩
- W. Q. Judge é acusado, na época, de forjar cartas para Olcott com a caligrafia dos Mahatmas. Cf. a esse respeito a resenha de Katinka Hesselink sobre The Judge Case: a conspiracy which ruined the Theosophical Cause. ↩
- Cf. C. Jinarajadasa, Mahatma Letters. Uma versão desta carta pode ser encontrada livremente na biblioteca virtual Upasika. ↩
- Cf. Alice Bailey, A nova religião mundial. In: Avatar: Boletim de Estudos de Ciência Espiritual, n. 1, 1974. (Extrato do livro O reaparecimento do Cristo.) ↩
- Dion Fortune, Autodefesa psíquica. ↩

















