Edmundo Cardillo, personagem ainda encoberto de mistérios, é hoje nome de uma avenida na cidade que escolheu para viver e em que se tornou político de expressão local: Poços de Caldas (MG), no sul-mineiro. Ex-catedrático do Colégio Machenzie de Poços de Caldas e ex-Diretor do Ginásio de Caxambu (conforme referências da Revista Dhâranâ nº 111, ano XVII), Cardillo foi iniciado, ao que tudo indica, na Sociedade Brasileira de Eubiose, então Sociedade Teosófica Brasileira. As referências a esta sua passagem são mencionadas pelo professor Henrique José de Souza em diversas de suas indicações textuais, quando aponta, por exemplo, a presença de “Edmundo” consultando-lhe sobre um artigo que ele próprio escreveria para Dhâranâ acerca da mística cidade de São Thomé das Letras (MG), ou quando indica que Cardillo seria membro do Instituto Cultural Brasileiro (braço da STB), além de outras menções mais conclusivas.
Não é possível precisar em momentos históricos a desavença ocorrida entre Edmundo Cardillo e o professor Henrique José de Souza, pela falta de referências cronológicas documentais sobre este marco. Até onde é possível perseguir, as indicações de HJS apontam para uma campanha difamatória ocorrida (de acordo com as imprecisões do texto) ora em 1935 ora em 1942. Pela presença ostensiva de Cardillo nas páginas de Dhâranâ, publicação oficial da STB, em 1942, é possível depreender que o ano mais correto para a ocorrência desta campanha é, em realidade, 1935, quando o professor Henrique José de Souza é também acometido por infortúnios de saúde.
O início dos atritos em 1935 é reforçado em documentos de fevereiro de 1962 pelo próprio HJS. O rompimento se dá no momento em que Cardillo – provavelmente já integrante das fileiras da STB – se une a outros dois companheiros, Bento e Tabajara, para criticar o Mestre. Ocorre que, segundo os registros deixados pelo professor, a importante revista paulista A Cigarra (que publicaria também textos do espírita Herculano Pires) foi a principal propagadora das calúnias, a partir de reportagem publicada e/ou incentivada pelos discípulos egressos. As críticas, entre outras coisas, seguiam na direção do relacionamento entre Henrique José de Souza e Helena Iracy Gonçalves, que mais adiante viria registrar-se como Helena Jefferson de Souza, casando-se em definitivo por volta de 1942, momento em que nova crise e campanha difamatória (esta talvez com os mesmos, talvez com outros atores) se abatem sobre os fundadores da STB.
O professor Henrique José de Souza, no entanto, escreve em seus registros que Cardillo, como outro da tríade “traiçoeira” – possivelmente Bento, já que consta menção a um “Bento Martins” nas edições de Dhâranâ -, havia se arrependido do caso, buscando em seguida uma reaproximação. Fato é que, a partir do início da década de 1940 já é possível voltar a ver Cardillo entre os atores da STB, conquanto reservando-se de frequentar assiduamente suas frentes e optando, ao que tudo indica, por uma carreira independente no ocultismo brasileiro.
É curioso notar a escolha de Cardillo por fixar residência em Poços de Caldas, município próximo em muitos sentidos de São Lourenço, sendo ambas estâncias hidrominerais do sul de Minas e quase equidistantes entre Rio e São Paulo. Cardillo, como o professor Henrique José de Souza, publica uma vasta obra bibliográfica acessível até hoje e, entre outros nomes fortes, é o responsável por verter para o português a famosa obra de Mario Roso de Luna – El libro que mata la muerte.
Chama a atenção também a corrente que adota e fica patente em uma de suas obras, provavelmente já de fim de vida, intitulada Fantasmas do Ocultismo. Nela, o autor ataca frontalmente quatro personagens que, segundo ele, em muito contribuem para obscurecer o fenômeno do ocultismo. São eles, de acordo com a chamada de capa do livro: Comte, Krishnamurti, Quevedo e Lobsang-Rampa. O que estes quatro nomes representam? Cardillo segue por partes para tecer sua argumentação.
Seguindo nas críticas pelos embates que enfrentou Blavatsky em fins do século XIX contra o “buldogue de Darwin” – T. Huxley -, Edmundo Cardillo aponta Comte como um dos principais detratores da teosofia e do ocultismo. Abrindo o capítulo com a citação crítica de Comte, (segundo a qual “Cada um de nós foi teólogo em sua infância, metafísico na sua juventude e físico na sua virilidade”), Cardillo parte das desavenças entre Comte e Littré e da visão de Stuart Mill sobre a aplicação política da filosofia comteana para apontar o positivismo como doutrina orgânica concorrente do catolicismo dogmático. Cardillo não comenta explicitamente, mas deixa transparecer que se refere à própria Religião da Humanidade, que culmina na Igreja Positivista, doutrina que colheu inúmeros adeptos entre abolicionistas e republicanos no Brasil e na Argentina, sendo hoje bastante mais expressiva nesta última nação. Para os positivistas – que, aliás, cunham o lema de nossa bandeira com a máxima “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim” (leia-se teologia-metafísica-física, mas prefira em palavras mais ousadas transformação-superação-metástase) -, a religião é dogmática e deve ser substituída pelo culto ao homem.
Nessa perspectiva, os positivistas comteanos fundam sua Religião da Humanidade, calcada numa trindade suprema humanística, mas que não foge, ela própria, ao dogmatismo. E é essa, fundamentalmente, a crítica de Cardillo. O professor Henrique José de Souza não deixa de criticar a corrente positivista, mas enaltece a doutrina monista e o humanismo, expresso acima de tudo no lema do “Amor”, segundo ele. E, não se deixa de notar, outro lema não menos importante que está envolvido em muita na discussão, o da Sociedade Teosófica, que propõe que “Não há religião superior à Verdade”, por mais que o combata, tipicamente positivista.
Adiante, Cardillo critica Krishnamurti. A passagem referente a Jiddu Krishnamurti, que ainda teremos oportunidade de comentar em detalhes, na Sociedade Teosófica é muito conhecida e, ao mesmo tempo em que contribui para que a segunda geração teosofista de Besant e Leadbeater caia em eterno descrédito, o alça ao estrelato entre os ocultistas independentes. Krishnamurti aponta na ata de dissolução da Ordem da Estrela do Oriente e em sua alocução, em 1929 (ano da crise nos EEUU!), que a “Verdade não pode ser sistematizada” e que “o homem se agrupa porque tem medo da solidão”, passando, em seguida, a percorrer, segundo Cardillo, os quatro cantos do mundo “esparzindo as luzes de sua inteligência”. Para Edmundo Cardillo, soa algo incoerente a atuação de um mestre que renuncia à sua posição mas segue ministrando ensinamentos. E é este seu ponto na crítica que tece a Krishnamurti – embora, é claro, reconheça seu valor no desmascaramento da farsa orquestrada sobretudo por Leadbeater, “que jamais foi dos mais autorizados no campo do Ocultismo”.
Alvo de Cardillo como os demais, o nome do terceiro personagem pode parecer familiar à primeira vista: Quevedo. Pois não é outra pessoa se não o familiaríssimo e “fantástico” Padre Quevedo, que em fins da década de 1990, início da década de 2000, protagonizou a série “O caçador de enigmas” no programa dominical da Rede Globo de Televisão. Espanhol radicado no Brasil desde a década de 1950, Quevedo é padre jesuíta (Companhia de Jesus) e possui formação universitária em Teologia e Parapsicologia, ramo que aplica em suas elocubrações antiocultistas. Chegou, por um momento, a enfrentar resistência na própria Igreja, que temia que a parapsicologia exaltasse fenômenos espíritas, quando em verdade é uma corrente, antes de tudo, materialista, que busca explicar o razoável pelo sensório-emocional.
Apoiando-se na crítica de Quevedo que elege Eliphas Levi como um dos principais ocultistas de todos os tempos, Cardillo sugere que o padre conheça mais sobre outros autores e chega a concordar com ele na visão de que as Ciências Ocultas carecem de método, uma vez que em Levi não há metodologia que seja. Outros nomes, contudo, conforme ressalta, são mais ricos em métodos e em ensinamentos incontestáveis – entre eles, alguns cristãos, desafia.
Para encerrar, Fantasmas do Ocultismo ainda discorre sobre um último caso não menos emblemático: o de T. Lobsang-Rampa, autoproclamado monge budista tibetano, que escrevia best-sellers sobre esoterismo. Tuesday Lobsang-Rampa, nome que parece saído de fato de uma imaginação como a de Daniel Defoe, é autor de livros que preconizam a arte da meditação para se obter dinheiro e sucesso na vida, e, segundo Cardillo, um mago negro nítido.
A história de Lobsang-Rampa é uma das menos conhecidas no Brasil hoje entre as trajetórias dos demais personagens destacados, muito embora seus livros tenham aportado por aqui com relativo sucesso na década de 1960. Como Krishnamurti, Lobsang-Rampa é pivô de uma crônica farsesca. Ao contrário do primeiro, porém, este sai como réu e é acusado de estelionato, quando, em 1958, o Daily Miror publica artigo com as descobertas de Clifford Burguess, detetive particular contratado pelo tibetologista Heinrich Harrer para investigar o passado do lama. Lobsang-Rampa, segundo a reportagem do Mirror, seria, na verdade, Cyrill Henry Hoskin, um inglês radicado no Canadá e que jamais havia estado no Tibete. Ao invés de admitir uma farsa, como esperavam que o fizesse seus detratores, Lobsang-Rampa afirma que a história é apenas meia verdade, já que ele, na realidade, ocupava o corpo de Hoskin através de um processo de transmigração (ou “reencarnificação“), e que, portanto, seria a reencarnação de um lama efetivamente treinado pelo 13º Dalai Lama. (Há, hoje, correntes de seguidores que apontam Lobsang-Rampa, na verdade, como um heterônimo de Hoskin, e que sua obra The third eye não passava de ficção autobiográfica, como o próprio Robinson Crusoé.)
Cardillo em nenhum momento se refere a esta passagem e talvez mesmo a desconhecesse, do alto de sua edição de 1972. Ele, porém, cita repetidamente as ideias de Louis Pauwels e Jacques Bergier em The morning of the magicians, ao colocarem em dúvida a origem de Lobsang-Rampa e associarem-no a “um dos alemães enviados em missão especial ao Tibete pelos chefes nazis”. Comparando Lobsang-Rampa com Karl Ernest Krafft, Cardillo encerra seus argumentos sobre os personagens que considera mais temerosos na história do ocultismo.
Tenha razão ou não o autor e seja ele próprio detrator da teosofia brasileira no início do século XX, suas teses contextualizam muitos dos conflitos de interesses pelos quais as diversas correntes esotéricas historicamente têm passado. A obra tem seus méritos por envolver o leitor nessas disputas e instigar a pesquisa aprofundada sobre o tema.
















viktor 0:53 em 07/06/2010 Permalink
Bom reforçar a impressão de que os principais conflitos gerados e enfrentados pela ST foram, em muito, fruto de suas próprias ramificações. Ao trabalhar inicialmente em paralelo ao espiritismo, a ST abre sua guarda às disputas com os Coulombs pela fundação da Sociedade Espírita. Também a Sociedade Antroposófica, que surge a partir da seção alemã da ST, e o desejo inculto de A. P. Sinnett e A. O. Hume em fundar uma sociedade anglo-indiana independente em Adyar criam novas representações para este universo particular.
Brita 13:07 em 29/06/2010 Permalink
Neste texto Madame Blavatsky faz uma dura crítica ao cristianismo. E se o título faz menção à Maçonaria, esta sim parece ter sido perdoada pela teósofa pelas ações espiritualmente positivas que trouxe ao mundo. Blavatsky afirma que ao menos a Maçonaria nunca fez mal à humanidade. Mas, para ela, o Cristianismo produziu não apenas um mal material, ao desenhar uma história sanguinolenta, mas também um mal espiritual, ao criar para o homem um deus do medo e do terror, arbitrário, ciumento e egoísta.
Blavatsky denuncia que a apropriação dos símbolos pagãos pela Igreja ocorre porque esta precisava se aproximar dos cultos da época para encontrar aceitação entre o povo. Mas, para conseguir estabelecer o seu domínio, a Igreja precisava não apenas apropriar-se dos símbolos, mas também esvaziá-los de sentido, mesmo porque os ritos cristãos não poderiam fazer referência àquilo que condenavam. E assim que os simbolismos pagãos vão sendo paulatinamente esquecidos. Esse esquecimento é promovido não apenas com a deturpação de alguns símbolos, mas de tal forma que a Igreja se antepõe a eles, como se todo o rito cristão tivesse nascido com ela e como se ela sempre tivesse existido tal como é hoje, quase que como uma instituição eterna. Ora, em geral pouco se sabe sobre a história da fundação da Igreja, que normalmente se resume ao cumprimento por Pedro dos desígnios de Jesus Cristo, que lhe diz “sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Blavatsky, ao apontar para a apropriação simbólica do paganismo pelo cristianismo, demonstra que há uma razão pela qual a Igreja não fala sobre sua própria origem: é uma origem que se quer manter esquecida. Ignora-se os pormenores históricos e sobressalta-se o fundamento bíblico, para que, assim, a Igreja possa cristalizar-se em si mesma, ser sua própria causa e sua própria origem.