alice


filme: Alice in Wonderland
diretor: Tim Burton
ano de lançamento: 2010
sessão: 1º/05/2010

Alice me é um assunto muito caro. Passei boa parte da vida estudando e tentando entender em minúcias este que é o mais absurdo conto de fadas de toda a História. Absurdo no bom sentido, porque Lewis Carroll (pseudônimo do matemático Charles Lutwidge Dodgson) foi uma espécie de precursor do surrealismo no século XIX – e o “pior”: do surrealismo infantil. Como conto de fadas, Alice no País das Maravilhas (o livro, bem entendido) não tem nada de conto de fadas. Não há uma moral da história, não há um enredo claramente definido, há apenas Alice e sua peregrinação.

Aristóteles, quando apresenta seu modelo clássico de narrativa – hoje a base da narrativa dramatúrgica hollywoodiana (vide Syd Field e outros roteiristas “in a box” do cinemão norte-americano) -, define uma estrutura comum que prevê um início, um meio e um fim. O início só efetivamente se inicia a partir de uma virada (o primeiro “plot point” dos manuais de roteiro). O final só efetivamente se aproxima quando chega em sua última virada (o segundo “plot point”). No meio dessas duas viradas, há uma outra reviravolta, um momento de introspecção profunda e real “virada de mesa” do protagonista: seu ponto médio. O ponto médio, em poucas palavras, é quando tudo está dando errado e um estalo faz o personagem principal subir nas tamancas. É o momento em que Rocky pula corda para a luta decisiva ao som de Eye of the Tiger. Ou o momento em que Rambo coloca a faca na bota e amarra bem justinha a faixa vermelha sobre a testa. Isso, só para ficar em dois exemplos stalloneanos.

Pois bem. Christopher Vogler, sobre o reconhecido estudo Hero’s Journey, do jungiano Joseph Campbell, coloca as fichas na mesa sobre a arte da narrativa de epopeias, quando apresenta arquétipos do inconsciente coletivo que norteiam as manifestações literárias e dramatúrgicas desde tempos imemoriais. Vogler, no seu The Writer’s Journey, conta como imaginamos histórias sempre com base nesses arquétipos, os mesmos da jornada do herói de Campbell. Não há história sem um herói e um vilão, como não há história sem um mentor, um arauto, um guardião. Os arquétipos podem não se apresentar claramente, podem não estar plenamente definidos, podem até se ausentar justamente para se tornarem evidentes. Mas não há história sem essa formação clássica. Ao menos, para Vogler. E, em última instância, é a mais pura verdade.

O problema é que a literatura como expressão artística emancipadora é precisamente o trabalho de se romper com a narrativa. Não há clássico literário que não seja, em alguma medida, transgressor. Por isso é que Joyce é enaltecido no início do século XX, como Flaubert foi, no século anterior. Lewis Carroll, portanto, só pode ser compreendido dessa maneira. Pois a Alice de Carroll (inspirada na Alice Liddell, mais tarde Alice Hargreaves, mas jamais Alice Kingsleigh, como em Tim Burton) é muito provavelmente o primeiro conto infantil “disparatado”, certamente o mais abstrato conto infantil vitoriano.

Há, em Alice, pontos de virada? Sim, é claro que há. O cair na toca do Coelho e o barbetar das cartas de baralho no juízo final do País das Maravilhas não fogem à regra aristotélica. É ali que Alice entra e sai de um mundo novo (o “mundo subterrâneo”, segundo Carroll). Há uma heroína e uma vilã definidas também – uma vilã, aliás, tão bem delineada como os vilões devem ser, já que guardam em si a sua Verdade. Mas algo chama a atenção em Alice: não há um encadeamento lógico de ideias, como numa narrativa tradicional. A estrutura narrativa de Carroll – talvez especialmente por ser ele um escritor bissexto, renegando-se inclusive seu dia-a-dia como matemático em Christ Church – tem uma linha (sim, ela é linear e não circular, como pode parecer pelo retorno às origens no argumento hoje clássico do despertar-de-um-sonho) pouco usual, sobretudo para contos de fadas. Como o próprio trocadilho parece inspirar, Wonderland – o País das Maravilhas, mas também o País das Descobertas, das Suposições, das Adivinhações (“I wonder…”) e das Peregrinações (“I wander…“) – é uma ilha de andarilhos. Nesta Terra, Alice é só uma caminhante, uma errante em busca de si própria, motivação evidenciada pela Lagarta em diálogo lisérgico. Na Alice de Carroll, diferentemente de na Alice de Burton, a protagonista é uma peregrina, que perpassa cenários um após o outro, sem, em princípio, qualquer sequência lógica – e falamos do matemático Dodgson, vale reforçar, para quem a falta de lógica não teria passado despercebida. Alice é Alice porque não há um conflito na trama que não seja simplesmente o autoconhecimento. Por isso, todos os personagens, com exceção da própria, alternam-se em papéis de vilão, mentor, guardião, pícaro. E Alice, pela simplicidade de seu enredo, quebra paradigmas. É apenas a história de uma garotinha que sonha viajar por um mundo fantástico. Ela peregrina em busca de respostas às suas questões existenciais e quer sempre retornar ao seu mundo. No final, descobre que tudo não passou de um sonho. Mais aristotélica impossível. Mas é aí que reside a sua naturalidade.

Quando Linda Woolverton (Fora, Cabeçuda!) escreve sua adaptação para Tim Burton, ela torna explícito o que era implícito e cria conflitos para guiar sua trama. O conflito com o Jabberwocky (ou Jaguadarte, na belíssima tradução creditada a Augusto de Campos, e apropriada pela equipe de dublagem do filme), em realidade, torna mesquinha uma trama que nem de Alice no País das Maravilhas, mas de Alice através do espelho, esta sim uma obra mais formal e talvez até contida, embora não menos genial.

Em Alice, na pior das hipóteses, não há monstros a serem enfrentados, não há expressão do mal, não há conflitos que não psicológicos. Expor esta parafernália literária de Carroll e traduzi-la (alguns dizem que “traduzir” recorre à etmologia latina para significar “trair”) em beabá épico é, no mínimo, pouco salutar, pois as gerações tresdê ouvirão pouco falar de um dos mais belos contos nonsense de todos os tempos.

Jaguardarte

(Lewis Carroll, em tradução de Augusto de Campos)

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

“Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Felfel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassurra!”

Êle arrancou sua espada vorpal
E foi atrás do inimigo do Homundo.
Na árvora Tamtam êle afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, ôlho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta, e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

“Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!”
Êle se ria jubileu.

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.