Aldous e Thomas Huxley

Veja que novela é a vida.

Helena Blavatsky (1831-1891), segundo Peter Washington – autor americano cuja principal pretensão em Madame Blavatsky’s Baboon é apontar a mística como uma guru embusteira (do tipo “façam o que eu digo, não façam o que eu faço”) -, possuía um babuíno empalhado em seu apartamento em Nova Iorque, de fraque, colete e óculos, portando um volume de On the origin of the species, de Darwin.

Aldous Huxley (1894-1963), incentivado por seu tutor espiritual particular, o polêmico Aleister Crowley – mago negro autodeclarado que influencia, vinte anos após sua morte, uma série de personalidades no auge da contracultura (de Jimmy Page a Ozzy Osbourne, passando também por Raul Seixas e Paulo Coelho) – consome mescalina e LSD, experiência lisérgica que culmina com The doors of perception (referência utilizada pela banda The Doors para cunhar seu nome). Huxley havia publicado em 1932 Brave New World, romance antitotalitarista em muitos sentidos precursor de 1984, Another Brick in the Wall e Matrix. Neto de Thomas Huxley, Aldous escreve também (em 1948, note-se!, ano em que é publicado também 1984 de Orwell e primeiro aniversário de morte de Crowley) o menos famoso romance moralista Ape and Essence, clara inspiração para The Planet of the Apes, de Pierre Boulle. Ambas as ficções prevêem um mundo pós-apocalíptico em que a humanidade encontra seu estado de natureza nuclear numa civilização essencialmente símia.

Albert Einstein (1879-1955) – que dispensa apresentações -, segundo o articulista Iverson Harris, confirmado pela teósofa Eunice Layton, e baseado nas informações de uma sobrinha do próprio físico, mantinha em sua cabeceira um volume de The Secret Doctrine, de Madame Blavatsky. Foi exatamente a presença ostensiva e constante deste volume sobre a cômoda que levou sua sobrinha, anos mais tarde, a procurar a Sociedade Teosófica, em Adyar, na década de 1960.

Andrew Keen (1960-), controvertido polemista e autoproclamado analista de mídia e novas tecnologias, formula seu one-hit The Cult of the Amateur e cita, em uma de suas mais brilhantes imagens, o Teorema do Macaco Infinito, de autoria de Thomas Huxley, para dizer que, dessa vida nada se leva, a não ser o conhecimento de especialistas. Falando especificamente da web contemporânea, em que pulula o conteúdo gerado pelo usuário e o “peer-to-peer”, Keen declara morte aos amadores, que desvirtuam nossa cultura e destroem nossos valores.

Aleister Crowley (1875-1947), guru embusteiro, escreve o cultuado Liber Al Vel Legis, citando a Lei que a tudo e a todos rege em seu ponto de vista hedonista particular. É de Crowley o “Faze o que tu queres, pois é tudo da Lei”. Referindo-se a si próprio como ocultista e satanista, Crowley se referia a Blavatsky como Irmã de A.:.A.:., ou seja, membro da Grande Fraternidade Branca.

Thomas Huxley (1825-1895), apelidado de “o buldogue de Darwin“, por ser um dos principais defensores do evolucionismo, debate abertamente o misticismo no século XIX, empunhando alto a crença no materialismo científico e na deturpação do darwinismo original, ao pregar que o homem descendia do macaco. (Lembre-se hoje que Darwin não falava exatamente isto, embora assim o tenham compreendido as mentes de então.) Foi Thomas Huxley quem criou o chamado Teorema do Macaco Infinito, para o qual “se fornecermos a um número infinito de macacos um número infinito de máquinas de escrever, alguns macacos em algum lugar vão acabar criando uma obra-prima – uma peça de Shakespeare, um diálogo de Platão ou um tratado econômico de Adam Smith” (Keen, 2009, p. 8). Borges também se remete a Thomas Huxley em seu belíssimo La Biblioteca de Babel.

Thomas, citado por Keen, avô de Aldous, que foi incluenciado por Crowley, que cita Blavatsky, que foi referência principal de Einstein, judeu como tantos outros perseguidos por Hitler, que, dizem, tinha um astrólogo particular que lhe recomendava Blavatsky, aquela que guardava um babuíno empalhado em sua casa. Curioso como damos voltas e descobrimos sempre os mesmos personagens em nosso próprio bairro. De que lado você fica?