livro: As origens do ritual na Igreja e na Maçonaria
autor: H. P. Blavatsky
ano de publicação: 1889
leitura: 29/05 -

Pequeno e inspirador ensaio de Madame Blavatsky, As origens do ritual na igreja e na maçonaria é uma espécie de panfleto raivoso de uma HPB já cansada e desgastada com as terríveis críticas e traições que sofrera ao longo de sua notável trajetória. Escrito ao fim de sua vida, o ensaio foi originalmente publicado na revista teosófica Lucifer, uma das tantas que a mística havia ajudado a fundar, e que tanto contribuíram para difundir sensivelmente a produção intelectual daquela primeira geração de teósofos da ST.

Blavatsky, que havia sofrido exatos cinco anos antes as piores injúrias e difamações, a partir do episódio que ficou conhecido como o Caso Coulomb, parece mais amargurada e ressentida que o normal, especialmente nas críticas que tece ao cristianismo católico apostólico romano. O Caso Coulomb, que marca profundamente a Sociedade Teosófica, recebe esta denominação por conta do casal Emma e Alexis Coulomb, respectivamente governanta e marceneiro de HPB em Adyar (Madras, Índia) – alguns lhes atribuem esotericamente ainda as funções de sacerdotisa e sacerdote da Loja de Adyar, mas o que se comprova apenas são suas capacidades mediúnicas e o interesse em fundar na ocasião uma Sociedade Espírita. Os Coulomb, em 1884, entregam ao reverendo Patterson, inimigo histórico de Blavatsky, uma série de cartas em que denunciavam como fraudes os fenômenos de materializações e congêneres presenciados por diversos ocultistas associados à ST. O material originou o infame relatório da Sociedade de Pesquisa Psíquica (SPR), que abalou fortemente a credibilidade de Madame Blavatsky nos Estados Unidos e na Europa, sendo desmentido de maneira não formalizada apenas há cerca de 30 anos. O relatório da SPR apresentou Blavatsky como uma farsante e a obrigou a exilar-se na Índia e, mais tarde, na Alemanha, onde finalizou a Doutrina Secreta em seus últimos meses de vida.

As origens do ritual na igreja e na maçonaria é fruto de reflexão sobre estas críticas, e traz à tona uma série de posições que norteiam a teosofia em relação ao catolicismo, especialmente levantando questões sobre a apropriação de símbolos e mitologias pagãs pelos cristãos primevos. O objetivo de HPB é claramente desmitificar a ideia de que a teosofia possa ser anti-cristã ou meramente uma religião sincrética. A teosofia é eclética, mas não sincrética. Para estabelecer este princípio, HPB elege o paganismo como seu marco zero para o estado arreligioso. Há, é claro, outras escalas possíveis de observação, que legariam ao paganismo apenas um estágio intermediário, mas Blavatsky quer confrontar o paganismo ao cristianismo pelo tanto que este confronto tem de simbólico para o obscurantismo propagado pela igreja durante a Idade Média.

Como descrevendo qualquer processo de colonialismo, HPB remonta a fontes históricas e mitológicas para apresentar como a igreja se apropria de símbolos pagãos, destruindo ornamentos e práticas místicas mas apoderando-se de seus templos. Para provar que não necessariamente esta intervenção é ruim, o exemplo mais próximo desta atuação eclesial dando origem a uma nova expressão cultural são as lendas arturianas, que incorporam as cruzadas e o Santo Graal como elementos motivadores dos conflitos entre bretões e saxões. Blavatsky cita também a bela referência à Liafail celta. Em todo o caso, as apropriações, ainda que enriqueçam e complexifiquem a cultura religiosa cristã, são as mesmas que curiosamente alimentam a intolerância religiosa medieval – e este é precisamente o calo que HPB quer evidenciar.

Ainda, uma das questões mais interessantes em todo o artigo é a proposta de questionamento metafísico cuja semente é lançada por Blavatsky: o símbolo é representação da realidade ou a realidade é representação do símbolo? Apenas abrir a possibilidade hipotética de que o símbolo, em verdade, seja a própria realidade, e a realidade seja uma instância simbólica é subverter toda a sequência lógica do pensamento ocidental. Madame Blavatsky não aponta diretamente uma resposta, mas introduz a questão ao comentar sobre a relação entre o que conhecemos por Sol e sua representação simbólica. Para HPB, o Sol como fonte de calor e iluminação é simbólo que existe antes e subsiste de forma completamente independente da realidade. A estrela-Sol – o Sol que nos ilumina todos os dias desde a aurora até o ocaso – é a verdadeira representação da tônica-Sol e não o contrário. Blavatsky, no final das contas, é um misto de Einstein com Robert Langdon