Noção cristalizada para muitas correntes iniciáticas, o chackra cardíaco (ou Anahata) possui doze pétalas exotéricas, mais duas pétalas esotéricas, que surgem apenas com a superação das primeiras. O professor Henrique José de Souza ensina que estas doze pétalas guardam o acúmulo de nossas experiências materiais e estão diretamente relacionadas com karma, apresentando uma relação de “tendências” humanas – positivas ou negativas – sobre as quais o indivíduo deve trabalhar em sua existência encarnada. O processamento destas tendências é o único modo de expiá-las e, então, preparar-se para a iniciação através do despertar das duas pétalas ocultas. Ele não chega a fazer esta relação, mas eu diria que as pétalas Lakshmi e Bodhisattva são em verdade pétalas latentes, ou sépalas (cálice, graal). O professor Henrique José de Souza ainda aponta um aspecto importante, relacionando dois vocábulos sânscritos para indicar que, para nos libertarmos de samsara (a roda de renascimentos e mortes), é preciso convertermos as nossas tendências negativas em tendências positivas, o que gera o equilíbrio de karma. A tais tendências, ele atribui o nome de Nidânas, para as negativas, e Skandhas, para as positivas.
Positivo e negativo, como veremos, são meras referências metonímicas. O que mais importa, sem dúvida, é a relação que o estudioso estabelece entre as Nidânas e as Skandhas. Para Helena Petrovna Blavatsky, em seu Glossário Teosófico, as Nidânas são as “doze causas da existência”, identificadas como uma cadeia ou, como nos interessa em particular, “origem da dependência”. As Nidânas são, para Blavatsky, representação maior do apego, elas são a origem de karma (que é, ele próprio uma Nidâna), mas também são o processo de purificação e conhecimento das causas. Tenho, por essa razão, a impressão de que o estado natural (ou chaos) de Anahata é preenchido por doze Nidânas, que, como indica HJS se convertem em Skandhas.
Segundo Blavatsky ainda, em seu Glossário Teosófico, baseado em suas palavras na Doutrina Secreta e nos ensinamentos do Catecismo Budista de Henry S. Olcott, as Nidânas são:
(1) Jâti, ou nascimento
(2) Jarâmana, ou decrepitude e morte
(3) Bhava, “o agente kármico que conduz cada novo ser senciente a nascer neste ou naquele modo de existência”, a causa criadora de Jâti
(4) Upâdâna, o apego à vida, a causa criadora de Bhava
(5) Trichnâ, ou o amor – seja puro ou impuro -, como desejo de gozo
(6) Vedâna, ou a sensação, percepção pelos sentidos
(7) Sparza, ou o tato
(8) Chadâyatana, os órgãos dos sentidos
(9) Nâma-rûpa, ou a personalidade em seu nome e forma
(10) Vijñâna, “perfeito conhecimento de todas as coisas perceptíveis e de todos os objetos em seu encadeamento e unidade”, consciência da personalidade
(11) Samskâra, ou ação no plano da ilusão, ação causal ou karma
(12) Avidyâ, ou ignorância da verdade
Em contrapartida, HPB define as Skandhas literalmente do sânscrito como “faces”, ou seja, “grupos de atributos”. Para ela, as Skandhas “juntam-se ao nascimento do homem e constituem sua personalidade”. Durante a existência humana encarnada, de acordo com Blavatsky, é necessário maturar estas tendências, ou superá-las. Superar uma tendência é deixá-la envelhecer e extinguir-se (a partir de Jarâmana). Este é também um processo já iniciado desde o nascimento (Jâti). No dizer popular: para morrer, basta estar vivo. As Skandhas são cada vibração que exalamos, os “germes da vida” (portanto, causas da existência). São também os “vínculos que atraem o Ego que se reencarna, os germes deixados atrás, quando este Ego entra no Devachan e que hão de ser recolhidos outra vez e esgotados por uma nova personalidade.
HPB afirma que existem cinco Skandhas exotéricas (ou Pañcha Skandhas) e duas ocultas, totalizando-se sete esotericamente. As Pañcha Skandhas seriam:
(1) Rûpa, ou forma
(2) Vidâna, ou percepção – a mesma Vedâna relacionada como uma Nidâna
(3) Sañjñâ, ou consciência
(4) Sanskara, ou ação – i.e. karma
(5) Vidyâna, ou conhecimento – o contrário de Avidyâ
Não há uma relação clara para a teosofia blavatskyana entre Skandhas e Nidânas, como estabele HJS, mas fica patente a identificação de ambos os conceitos com a ideia de uma metástasis (termo grego que designa “mudança de lugar”). As Nidânas, que aparecem como fator de “ignorância”, devem ser convertidas em Skandhas, ou “conhecimento”.
Longe do esoterismo, John B. Thompson, cientista político americano cuja área de atuação mais específica se volta para a análise das relações entre mídia e política, observa em dois curtos parágrafos extremamente instigantes a etimologia da palavra “escândalo”. Interessado nos fenômenos de cobertura da imprensa sobre escândalos políticos, ele se depara com uma origem curiosa para o termo. Para nós, feliz descoberta.
Segundo Thompson (O escândalo político, p. 38), o termo escândalo
provavelmente deriva da raiz indo-germânica skand, significando pular ou saltar. Os derivativos do grego antigo, tais como skandalon, foram empregados de uma maneira figurativa para significar uma armadilha, um obstáculo ou uma causa de deslize. A palavra foi primeiro usada dentro de um contexto religioso nos Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento. A noção de uma armadilha, ou de um obstáculo, era uma característica essencial da versão teológica do Velho Testamento. Ela ajudou a explicar como um povo indissoluvelmente aliado a Deus, o Yahweh, poderia, apesar disso, começar a duvidar d’Ele, e desviar-se do seu caminho: tal dúvida brotou de um obstáculo, uma pedra de tropeço colocada no caminho, que tinha como objetivo testar as pessoas e ver como elas iriam reagir. Essa idéia está expressa nos Septuaginta pela palavra skandalon.
Sem apresentar outras evidências e sem se dar conta do achado, preocupado que estava em trabalhar a noção de “escândalo político”, Thompson apresenta a raiz skand, que marcadamente está presente em Skandhas, como uma espécie de “teste de fé”. O teste de fé ou armadilha é indício do processo de metástasis humana. É através deste tipo de teste que as Nidânas são convertidas em Skandhas e o indivíduo atinge o adeptado.
Não é difícil perceber, porém, que a ideia de um teste de fé ou de uma armadilha está intimamente associada a um entendimento de tentação ou provação, noção esta que é rapidamente apropriada pela cultura judaico-cristã como expiação do pecado, e, portanto, da culpa. No texto de Thompson, ele próprio segue:
A noção de armadilha, ou obstáculo, se tornou parte do pensamento judaico e cristão inicial, mas foi gradualmente deslocada da idéia de um teste de fé. A teologia cristã colocou mais ênfase na culpa individual; se as pessoas tropeçam e se extraviam do caminho, se elas cometem atos pecaminosos, isso pode se originar de sua própria fraqueza interna ou falibilidade
Posto de outro modo, para o cristianismo, o “escândalo” é originado pelo pecado, que nada mais é que a sucumbência às Nidânas, causa da existência. Esta apropriação gera também, de acordo com o cientista político, o desenvolvimento da palavra latina scandalum, que significava tanto “escândalo”, como “calúnia”, e tem raiz idêntica à derivação esclandre, do antigo francês, e à atual slander, que em inglês significa “calúnia”, “difamação”.
A palavra escândalo apareceu pela primeira vez em inglês no século XVI. Palavras semelhantes apareceram em outras línguas românicas praticamente ao mesmo tempo (em espanhol, escândalo; em português, escândalo; em italiano, scandalo. Scandal foi derivado do latim, e provavelmente da palavra francesa scandale, que foi criada para significar o sentimento estrito do termo eclesiástico latino scandalum, como distinto dos sentidos que se desenvolveram de esclandre.
O “escândalo” é, pois, inclusive segundo o dicionário, “aquilo que é causa ou resulta de erro ou pecado” – por isso sua admissão como ato ou efeito de se caluniar. A etimilogia nos é importante para compreender o processo de iluminação. Transformar tendências negativas em Skandhas – com permissão poética, “escandalizar” é o equivalente à metástasis. E, no entanto, o “escândalo” é aquilo que é causa ou resulta de erro, acepção que o aproxima do significado de Nidâna e do ditado latino Errare humanum est, já que “escândalo” é, nesse sentido, o próprio incorrer-em-erro. Não seria a iniciação o exato processo de errar para aperfeiçoar?
viktor 0:53 em 07/06/2010 Permalink
Bom reforçar a impressão de que os principais conflitos gerados e enfrentados pela ST foram, em muito, fruto de suas próprias ramificações. Ao trabalhar inicialmente em paralelo ao espiritismo, a ST abre sua guarda às disputas com os Coulombs pela fundação da Sociedade Espírita. Também a Sociedade Antroposófica, que surge a partir da seção alemã da ST, e o desejo inculto de A. P. Sinnett e A. O. Hume em fundar uma sociedade anglo-indiana independente em Adyar criam novas representações para este universo particular.
Brita 13:07 em 29/06/2010 Permalink
Neste texto Madame Blavatsky faz uma dura crítica ao cristianismo. E se o título faz menção à Maçonaria, esta sim parece ter sido perdoada pela teósofa pelas ações espiritualmente positivas que trouxe ao mundo. Blavatsky afirma que ao menos a Maçonaria nunca fez mal à humanidade. Mas, para ela, o Cristianismo produziu não apenas um mal material, ao desenhar uma história sanguinolenta, mas também um mal espiritual, ao criar para o homem um deus do medo e do terror, arbitrário, ciumento e egoísta.
Blavatsky denuncia que a apropriação dos símbolos pagãos pela Igreja ocorre porque esta precisava se aproximar dos cultos da época para encontrar aceitação entre o povo. Mas, para conseguir estabelecer o seu domínio, a Igreja precisava não apenas apropriar-se dos símbolos, mas também esvaziá-los de sentido, mesmo porque os ritos cristãos não poderiam fazer referência àquilo que condenavam. E assim que os simbolismos pagãos vão sendo paulatinamente esquecidos. Esse esquecimento é promovido não apenas com a deturpação de alguns símbolos, mas de tal forma que a Igreja se antepõe a eles, como se todo o rito cristão tivesse nascido com ela e como se ela sempre tivesse existido tal como é hoje, quase que como uma instituição eterna. Ora, em geral pouco se sabe sobre a história da fundação da Igreja, que normalmente se resume ao cumprimento por Pedro dos desígnios de Jesus Cristo, que lhe diz “sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Blavatsky, ao apontar para a apropriação simbólica do paganismo pelo cristianismo, demonstra que há uma razão pela qual a Igreja não fala sobre sua própria origem: é uma origem que se quer manter esquecida. Ignora-se os pormenores históricos e sobressalta-se o fundamento bíblico, para que, assim, a Igreja possa cristalizar-se em si mesma, ser sua própria causa e sua própria origem.