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  • viktor 14/06/2010 10:40 PM Permalink | Responder
    Tags: auguste comte, edmundo cardillo, eliphas levi, henrique josé de souza, , mario roso de luna, ocultismo, óscar gonzález-quevedo, poços de caldas, tuesday lobsang-rampa   

    Edmundo Cardillo, personagem ainda encoberto de mistérios, é hoje nome de uma avenida na cidade que escolheu para viver e em que se tornou político de expressão local: Poços de Caldas (MG), no sul-mineiro. Ex-catedrático do Colégio Machenzie de Poços de Caldas e ex-Diretor do Ginásio de Caxambu (conforme referências da Revista Dhâranâ nº 111, ano XVII), Cardillo foi iniciado, ao que tudo indica, na Sociedade Brasileira de Eubiose, então Sociedade Teosófica Brasileira. As referências a esta sua passagem são mencionadas pelo professor Henrique José de Souza em diversas de suas indicações textuais, quando aponta, por exemplo, a presença de “Edmundo” consultando-lhe sobre um artigo que ele próprio escreveria para Dhâranâ acerca da mística cidade de São Thomé das Letras (MG), ou quando indica que Cardillo seria membro do Instituto Cultural Brasileiro (braço da STB), além de outras menções mais conclusivas.

    Não é possível precisar em momentos históricos a desavença ocorrida entre Edmundo Cardillo e o professor Henrique José de Souza, pela falta de referências cronológicas documentais sobre este marco. Até onde é possível perseguir, as indicações de HJS apontam para uma campanha difamatória ocorrida (de acordo com as imprecisões do texto) ora em 1935 ora em 1942. Pela presença ostensiva de Cardillo nas páginas de Dhâranâ, publicação oficial da STB, em 1942, é possível depreender que o ano mais correto para a ocorrência desta campanha é, em realidade, 1935, quando o professor Henrique José de Souza é também acometido por infortúnios de saúde.

    O início dos atritos em 1935 é reforçado em documentos de fevereiro de 1962 pelo próprio HJS. O rompimento se dá no momento em que Cardillo – provavelmente já integrante das fileiras da STB – se une a outros dois companheiros, Bento e Tabajara, para criticar o Mestre. Ocorre que, segundo os registros deixados pelo professor, a importante revista paulista A Cigarra (que publicaria também textos do espírita Herculano Pires) foi a principal propagadora das calúnias, a partir de reportagem publicada e/ou incentivada pelos discípulos egressos. As críticas, entre outras coisas, seguiam na direção do relacionamento entre Henrique José de Souza e Helena Iracy Gonçalves, que mais adiante viria registrar-se como Helena Jefferson de Souza, casando-se em definitivo por volta de 1942, momento em que nova crise e campanha difamatória (esta talvez com os mesmos, talvez com outros atores) se abatem sobre os fundadores da STB.

    O professor Henrique José de Souza, no entanto, escreve em seus registros que Cardillo, como outro da tríade “traiçoeira” – possivelmente Bento, já que consta menção a um “Bento Martins” nas edições de Dhâranâ -, havia se arrependido do caso, buscando em seguida uma reaproximação. Fato é que, a partir do início da década de 1940 já é possível voltar a ver Cardillo entre os atores da STB, conquanto reservando-se de frequentar assiduamente suas frentes e optando, ao que tudo indica, por uma carreira independente no ocultismo brasileiro.

    É curioso notar a escolha de Cardillo por fixar residência em Poços de Caldas, município próximo em muitos sentidos de São Lourenço, sendo ambas estâncias hidrominerais do sul de Minas e quase equidistantes entre Rio e São Paulo. Cardillo, como o professor Henrique José de Souza, publica uma vasta obra bibliográfica acessível até hoje e, entre outros nomes fortes, é o responsável por verter para o português a famosa obra de Mario Roso de Luna – El libro que mata la muerte.

    Chama a atenção também a corrente que adota e fica patente em uma de suas obras, provavelmente já de fim de vida, intitulada Fantasmas do Ocultismo. Nela, o autor ataca frontalmente quatro personagens que, segundo ele, em muito contribuem para obscurecer o fenômeno do ocultismo. São eles, de acordo com a chamada de capa do livro: Comte, Krishnamurti, Quevedo e Lobsang-Rampa. O que estes quatro nomes representam? Cardillo segue por partes para tecer sua argumentação.

    Seguindo nas críticas pelos embates que enfrentou Blavatsky em fins do século XIX contra o “buldogue de Darwin” – T. Huxley -, Edmundo Cardillo aponta Comte como um dos principais detratores da teosofia e do ocultismo. Abrindo o capítulo com a citação crítica de Comte, (segundo a qual “Cada um de nós foi teólogo em sua infância, metafísico na sua juventude e físico na sua virilidade”), Cardillo parte das desavenças entre Comte e Littré e da visão de Stuart Mill sobre a aplicação política da filosofia comteana para apontar o positivismo como doutrina orgânica concorrente do catolicismo dogmático. Cardillo não comenta explicitamente, mas deixa transparecer que se refere à própria Religião da Humanidade, que culmina na Igreja Positivista, doutrina que colheu inúmeros adeptos entre abolicionistas e republicanos no Brasil e na Argentina, sendo hoje bastante mais expressiva nesta última nação. Para os positivistas – que, aliás, cunham o lema de nossa bandeira com a máxima “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim” (leia-se teologia-metafísica-física, mas prefira em palavras mais ousadas transformação-superação-metástase) -, a religião é dogmática e deve ser substituída pelo culto ao homem.

    Nessa perspectiva, os positivistas comteanos fundam sua Religião da Humanidade, calcada numa trindade suprema humanística, mas que não foge, ela própria, ao dogmatismo. E é essa, fundamentalmente, a crítica de Cardillo. O professor Henrique José de Souza não deixa de criticar a corrente positivista, mas enaltece a doutrina monista e o humanismo, expresso acima de tudo no lema do “Amor”, segundo ele. E, não se deixa de notar, outro lema não menos importante que está envolvido em muita na discussão, o da Sociedade Teosófica, que propõe que “Não há religião superior à Verdade”, por mais que o combata, tipicamente positivista.

    Adiante, Cardillo critica Krishnamurti. A passagem referente a Jiddu Krishnamurti, que ainda teremos oportunidade de comentar em detalhes, na Sociedade Teosófica é muito conhecida e, ao mesmo tempo em que contribui para que a segunda geração teosofista de Besant e Leadbeater caia em eterno descrédito, o alça ao estrelato entre os ocultistas independentes. Krishnamurti aponta na ata de dissolução da Ordem da Estrela do Oriente e em sua alocução, em 1929 (ano da crise nos EEUU!), que a “Verdade não pode ser sistematizada” e que “o homem se agrupa porque tem medo da solidão”, passando, em seguida, a percorrer, segundo Cardillo, os quatro cantos do mundo “esparzindo as luzes de sua inteligência”. Para Edmundo Cardillo, soa algo incoerente a atuação de um mestre que renuncia à sua posição mas segue ministrando ensinamentos. E é este seu ponto na crítica que tece a Krishnamurti – embora, é claro, reconheça seu valor no desmascaramento da farsa orquestrada sobretudo por Leadbeater, “que jamais foi dos mais autorizados no campo do Ocultismo”.

    Alvo de Cardillo como os demais, o nome do terceiro personagem pode parecer familiar à primeira vista: Quevedo. Pois não é outra pessoa se não o familiaríssimo e “fantásticoPadre Quevedo, que em fins da década de 1990, início da década de 2000, protagonizou a série “O caçador de enigmas” no programa dominical da Rede Globo de Televisão. Espanhol radicado no Brasil desde a década de 1950, Quevedo é padre jesuíta (Companhia de Jesus) e possui formação universitária em Teologia e Parapsicologia, ramo que aplica em suas elocubrações antiocultistas. Chegou, por um momento, a enfrentar resistência na própria Igreja, que temia que a parapsicologia exaltasse fenômenos espíritas, quando em verdade é uma corrente, antes de tudo, materialista, que busca explicar o razoável pelo sensório-emocional.

    Apoiando-se na crítica de Quevedo que elege Eliphas Levi como um dos principais ocultistas de todos os tempos, Cardillo sugere que o padre conheça mais sobre outros autores e chega a concordar com ele na visão de que as Ciências Ocultas carecem de método, uma vez que em Levi não há metodologia que seja. Outros nomes, contudo, conforme ressalta, são mais ricos em métodos e em ensinamentos incontestáveis – entre eles, alguns cristãos, desafia.

    Para encerrar, Fantasmas do Ocultismo ainda discorre sobre um último caso não menos emblemático: o de T. Lobsang-Rampa, autoproclamado monge budista tibetano, que escrevia best-sellers sobre esoterismo. Tuesday Lobsang-Rampa, nome que parece saído de fato de uma imaginação como a de Daniel Defoe, é autor de livros que preconizam a arte da meditação para se obter dinheiro e sucesso na vida, e, segundo Cardillo, um mago negro nítido.

    A história de Lobsang-Rampa é uma das menos conhecidas no Brasil hoje entre as trajetórias dos demais personagens destacados, muito embora seus livros tenham aportado por aqui com relativo sucesso na década de 1960. Como Krishnamurti, Lobsang-Rampa é pivô de uma crônica farsesca. Ao contrário do primeiro, porém, este sai como réu e é acusado de estelionato, quando, em 1958, o Daily Miror publica artigo com as descobertas de Clifford Burguess, detetive particular contratado pelo tibetologista Heinrich Harrer para investigar o passado do lama. Lobsang-Rampa, segundo a reportagem do Mirror, seria, na verdade, Cyrill Henry Hoskin, um inglês radicado no Canadá e que jamais havia estado no Tibete. Ao invés de admitir uma farsa, como esperavam que o fizesse seus detratores, Lobsang-Rampa afirma que a história é apenas meia verdade, já que ele, na realidade, ocupava o corpo de Hoskin através de um processo de transmigração (ou “reencarnificação“), e que, portanto, seria a reencarnação de um lama efetivamente treinado pelo 13º Dalai Lama. (Há, hoje, correntes de seguidores que apontam Lobsang-Rampa, na verdade, como um heterônimo de Hoskin, e que sua obra The third eye não passava de ficção autobiográfica, como o próprio Robinson Crusoé.)

    Cardillo em nenhum momento se refere a esta passagem e talvez mesmo a desconhecesse, do alto de sua edição de 1972. Ele, porém, cita repetidamente as ideias de Louis Pauwels e Jacques Bergier em The morning of the magicians, ao colocarem em dúvida a origem de Lobsang-Rampa e associarem-no a “um dos alemães enviados em missão especial ao Tibete pelos chefes nazis”. Comparando Lobsang-Rampa com Karl Ernest Krafft, Cardillo encerra seus argumentos sobre os personagens que considera mais temerosos na história do ocultismo.

    Tenha razão ou não o autor e seja ele próprio detrator da teosofia brasileira no início do século XX, suas teses contextualizam muitos dos conflitos de interesses pelos quais as diversas correntes esotéricas historicamente têm passado. A obra tem seus méritos por envolver o leitor nessas disputas e instigar a pesquisa aprofundada sobre o tema.

     
  • viktor 07/06/2010 9:18 PM Permalink | Responder
    Tags: anahata, , henrique josé de souza, john b thompson, nidânas, scandalum, skandhas   

    Noção cristalizada para muitas correntes iniciáticas, o chackra cardíaco (ou Anahata) possui doze pétalas exotéricas, mais duas pétalas esotéricas, que surgem apenas com a superação das primeiras. O professor Henrique José de Souza ensina que estas doze pétalas guardam o acúmulo de nossas experiências materiais e estão diretamente relacionadas com karma, apresentando uma relação de “tendências” humanas – positivas ou negativas – sobre as quais o indivíduo deve trabalhar em sua existência encarnada. O processamento destas tendências é o único modo de expiá-las e, então, preparar-se para a iniciação através do despertar das duas pétalas ocultas. Ele não chega a fazer esta relação, mas eu diria que as pétalas Lakshmi e Bodhisattva são em verdade pétalas latentes, ou sépalas (cálice, graal). O professor Henrique José de Souza ainda aponta um aspecto importante, relacionando dois vocábulos sânscritos para indicar que, para nos libertarmos de samsara (a roda de renascimentos e mortes), é preciso convertermos as nossas tendências negativas em tendências positivas, o que gera o equilíbrio de karma. A tais tendências, ele atribui o nome de Nidânas, para as negativas, e Skandhas, para as positivas.

    Positivo e negativo, como veremos, são meras referências metonímicas. O que mais importa, sem dúvida, é a relação que o estudioso estabelece entre as Nidânas e as Skandhas. Para Helena Petrovna Blavatsky, em seu Glossário Teosófico, as Nidânas são as “doze causas da existência”, identificadas como uma cadeia ou, como nos interessa em particular, “origem da dependência”. As Nidânas são, para Blavatsky, representação maior do apego, elas são a origem de karma (que é, ele próprio uma Nidâna), mas também são o processo de purificação e conhecimento das causas. Tenho, por essa razão, a impressão de que o estado natural (ou chaos) de Anahata é preenchido por doze Nidânas, que, como indica HJS se convertem em Skandhas.

    Segundo Blavatsky ainda, em seu Glossário Teosófico, baseado em suas palavras na Doutrina Secreta e nos ensinamentos do Catecismo Budista de Henry S. Olcott, as Nidânas são:
    (1) Jâti, ou nascimento
    (2) Jarâmana, ou decrepitude e morte
    (3) Bhava, “o agente kármico que conduz cada novo ser senciente a nascer neste ou naquele modo de existência”, a causa criadora de Jâti
    (4) Upâdâna, o apego à vida, a causa criadora de Bhava
    (5) Trichnâ, ou o amor – seja puro ou impuro -, como desejo de gozo
    (6) Vedâna, ou a sensação, percepção pelos sentidos
    (7) Sparza, ou o tato
    (8) Chadâyatana, os órgãos dos sentidos
    (9) Nâma-rûpa, ou a personalidade em seu nome e forma
    (10) Vijñâna, “perfeito conhecimento de todas as coisas perceptíveis e de todos os objetos em seu encadeamento e unidade”, consciência da personalidade
    (11) Samskâra, ou ação no plano da ilusão, ação causal ou karma
    (12) Avidyâ, ou ignorância da verdade

    Em contrapartida, HPB define as Skandhas literalmente do sânscrito como “faces”, ou seja, “grupos de atributos”. Para ela, as Skandhas “juntam-se ao nascimento do homem e constituem sua personalidade”. Durante a existência humana encarnada, de acordo com Blavatsky, é necessário maturar estas tendências, ou superá-las. Superar uma tendência é deixá-la envelhecer e extinguir-se (a partir de Jarâmana). Este é também um processo já iniciado desde o nascimento (Jâti). No dizer popular: para morrer, basta estar vivo. As Skandhas são cada vibração que exalamos, os “germes da vida” (portanto, causas da existência). São também os “vínculos que atraem o Ego que se reencarna, os germes deixados atrás, quando este Ego entra no Devachan e que hão de ser recolhidos outra vez e esgotados por uma nova personalidade.

    HPB afirma que existem cinco Skandhas exotéricas (ou Pañcha Skandhas) e duas ocultas, totalizando-se sete esotericamente. As Pañcha Skandhas seriam:
    (1) Rûpa, ou forma
    (2) Vidâna, ou percepção – a mesma Vedâna relacionada como uma Nidâna
    (3) Sañjñâ, ou consciência
    (4) Sanskara, ou ação – i.e. karma
    (5) Vidyâna, ou conhecimento – o contrário de Avidyâ

    Não há uma relação clara para a teosofia blavatskyana entre Skandhas e Nidânas, como estabele HJS, mas fica patente a identificação de ambos os conceitos com a ideia de uma metástasis (termo grego que designa “mudança de lugar”). As Nidânas, que aparecem como fator de “ignorância”, devem ser convertidas em Skandhas, ou “conhecimento”.

    Longe do esoterismo, John B. Thompson, cientista político americano cuja área de atuação mais específica se volta para a análise das relações entre mídia e política, observa em dois curtos parágrafos extremamente instigantes a etimologia da palavra “escândalo”. Interessado nos fenômenos de cobertura da imprensa sobre escândalos políticos, ele se depara com uma origem curiosa para o termo. Para nós, feliz descoberta.

    Segundo Thompson (O escândalo político, p. 38), o termo escândalo

    provavelmente deriva da raiz indo-germânica skand, significando pular ou saltar. Os derivativos do grego antigo, tais como skandalon, foram empregados de uma maneira figurativa para significar uma armadilha, um obstáculo ou uma causa de deslize. A palavra foi primeiro usada dentro de um contexto religioso nos Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento. A noção de uma armadilha, ou de um obstáculo, era uma característica essencial da versão teológica do Velho Testamento. Ela ajudou a explicar como um povo indissoluvelmente aliado a Deus, o Yahweh, poderia, apesar disso, começar a duvidar d’Ele, e desviar-se do seu caminho: tal dúvida brotou de um obstáculo, uma pedra de tropeço colocada no caminho, que tinha como objetivo testar as pessoas e ver como elas iriam reagir. Essa idéia está expressa nos Septuaginta pela palavra skandalon.

    Sem apresentar outras evidências e sem se dar conta do achado, preocupado que estava em trabalhar a noção de “escândalo político”, Thompson apresenta a raiz skand, que marcadamente está presente em Skandhas, como uma espécie de “teste de fé”. O teste de fé ou armadilha é indício do processo de metástasis humana. É através deste tipo de teste que as Nidânas são convertidas em Skandhas e o indivíduo atinge o adeptado.

    Não é difícil perceber, porém, que a ideia de um teste de fé ou de uma armadilha está intimamente associada a um entendimento de tentação ou provação, noção esta que é rapidamente apropriada pela cultura judaico-cristã como expiação do pecado, e, portanto, da culpa. No texto de Thompson, ele próprio segue:

    A noção de armadilha, ou obstáculo, se tornou parte do pensamento judaico e cristão inicial, mas foi gradualmente deslocada da idéia de um teste de fé. A teologia cristã colocou mais ênfase na culpa individual; se as pessoas tropeçam e se extraviam do caminho, se elas cometem atos pecaminosos, isso pode se originar de sua própria fraqueza interna ou falibilidade

    Posto de outro modo, para o cristianismo, o “escândalo” é originado pelo pecado, que nada mais é que a sucumbência às Nidânas, causa da existência. Esta apropriação gera também, de acordo com o cientista político, o desenvolvimento da palavra latina scandalum, que significava tanto “escândalo”, como “calúnia”, e tem raiz idêntica à derivação esclandre, do antigo francês, e à atual slander, que em inglês significa “calúnia”, “difamação”.

    A palavra escândalo apareceu pela primeira vez em inglês no século XVI. Palavras semelhantes apareceram em outras línguas românicas praticamente ao mesmo tempo (em espanhol, escândalo; em português, escândalo; em italiano, scandalo. Scandal foi derivado do latim, e provavelmente da palavra francesa scandale, que foi criada para significar o sentimento estrito do termo eclesiástico latino scandalum, como distinto dos sentidos que se desenvolveram de esclandre.

    O “escândalo” é, pois, inclusive segundo o dicionário, “aquilo que é causa ou resulta de erro ou pecado” – por isso sua admissão como ato ou efeito de se caluniar. A etimilogia nos é importante para compreender o processo de iluminação. Transformar tendências negativas em Skandhas – com permissão poética, “escandalizar” é o equivalente à metástasis. E, no entanto, o “escândalo” é aquilo que é causa ou resulta de erro, acepção que o aproxima do significado de Nidâna e do ditado latino Errare humanum est, já que “escândalo” é, nesse sentido, o próprio incorrer-em-erro. Não seria a iniciação o exato processo de errar para aperfeiçoar?

     
  • viktor 31/05/2010 12:41 PM Permalink | Responder
    Tags: annie besant, antroposofia, c w leadbeater, , henrique josé de souza, , montessori, piaget, rudolph steiner, teosofia, waldorf   

    A humanidade não é preto no branco. A humanidade é cinza. Humano (demasiado humano) como seus congêneres, Rudolph Steiner está envolvido em episódios dos mais marcantes que entrelaçam a passagem de bastão da Sociedade Teosófica para uma nova geração espiritualista pós-Leadbeater. Por isso mesmo, amado por uns e odiado por outros, ele consegue escapar à fogueira em que muitos lhe queriam arder, embora digam que talvez não tenha sido capaz de escapar à sua própria fogueira de vaidades. Para uns e para outros, ao assumir posição ímpar como fundador da corrente antroposófica europeia, Steiner cultivou simpatias e antipatias. Uma coisa é certa: sua contribuição ao movimento espiritualista é definitiva.

    Rudolph Steiner inicia sua saga em 1899, quando escreve um ensaio sobre a obra de Goethe e é convidado na sequência a palestrar sobre Nietzsche para um grupo de teósofos da Alemanha. As leituras têm boa repercussão e, em 1902, Steiner apresenta-se como um dos fundadores da seção alemã da Sociedade Teosófica, ocupando-se de sua administração até o período de 1909-1912, em que entra em rota de colisão com a segunda geração da ST, liderada por Besant e Leadbeater, e que havia iniciado seus esforços para a adesão maciça de seus membros à Ordem da Estrela do Oriente, cujo objetivo maior era introduzir o jovem Krishnamurti como avatara de Cristo.

    A história de Besant e Leadbeater corre por outras veias – e é curioso notar que a renúncia de Krishnamurti, mais tarde, se converteu também numa experiência pedagógica, com a fundação do Krishnamurti Centre -, mas Steiner foi um dos denunciadores da farsa na Alemanha – como o professor Henrique José de Souza o foi no Brasil, e o grupo espanhol de Roso de Luna, na Espanha. Incomodado com a ideia da reencarnação física de Cristo, Steiner palestrava sobre o avatara como um acontecimento raro e indicava que Maytreia (o Cristo) se desvelaria apenas em seu duplo etérico, não propriamente materializado. Foi assim que, em 1912, ele rompeu em definitivo com a ST e apresentou ao mundo sua Sociedade Antroposófica, um movimento novo, cuja raiz teosófica se mesclava a uma abordagem psicológica de alguns assuntos, focando especialmente no homem e no desenvolvimento humano (social e espiritual).

    A antroposofia tem grandes e valorosos méritos, mas, por conta de sua liderança, Steiner – cuja semelhança com o professor Henrique José de Souza é notável – acaba se isolando de grupos de teósofos expressivos nos quais havia buscado apoio inicialmente.

    O objetivo, contudo, de toda essa circunavegação não é tão-somente contextualizar a trajetória de Steiner e nem tampouco crucificá-lo. Steiner é cinza porque tem seus valores. E talvez o principal deles seja o de ter desenvolvido um estudo sobre a experiência cristã à parte, avançando sobre os paradigmas de Blavatsky, e cunhando uma nova experiência de pedagogia humana, o chamado método Waldorf.

    Curiosamente, Steiner entra para a história oficial como o fundador de um método didático que sequer leva seu nome. “Waldorf” se refere à fábrica de cigarros Waldorf-Astoria, convertida em escola e inaugurada como projeto piloto de sua iniciativa. O método Waldorf é um conjunto de práticas pedagógicas que têm o intento de despertar a criança aos poucos para seu amadurecimento intelectual. Respeitando o desenvolvimento setenário da mente humana, Steiner encontra uma divisão etária próxima à de Piaget, e classifica as idades das crianças de 1 a 7 anos (fase sensorial), de 7 a 14 anos (fase artística e imaginativa, ligada ao emocional), e de 14 a 21 anos (fase de amadurecimento intelectual, do caráter ético e do senso crítico).

    Em princípio, sua proposição parece simples, mas de certa forma ela subverte o ensino tradicionalista de forma ainda mais radical do que Montessori havia feito em 1907. Pois em 1919 Steiner propunha que não se acelerasse o raciocínio abstrato na educação infantil, já que ele só seria plenamente formado com o tempo. Ao contrário, era necessário ensinar as crianças matérias básicas de sua sobrevivência, favorecendo trabalhos manuais e artesanais, e introduzindo um currículo que lhe interessasse diretamente, cuja interdisciplinaridade é dos principais méritos. Em muitos sentidos, o método Waldorf é uma espécie de imersão na vida em seu aspecto cultural. E a cultura é efetivamente a única característica distintiva humana, como sabemos.

    Unindo conceitos antroposófico-teosóficos à dinâmica pedagógica que valoriza a iniciativa e o engajamento social e cultural, o método Waldorf é capaz de formar crianças e jovens com senso artístico apurado em relação à média, e chega, ainda, a influir inclusive sobre o corpo físico (há estudos que comprovam que os pupilos Waldorf são menos sujeitos a sintomas de alergias) e o emocional, trabalhando valores ligados à responsabilidade social, ambiental e política da humanidade. Construindo uma classe acinzentada, em que todos reconhecem-se como iguais, e étnica, cultural e socialmente miscigenados, Steiner foi capaz de dar novas cores à educação moderna.

     
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