
livro: Terra Oca
autor: Raymond Bernard
ano de publicação: 1979
leitura: 3/02 a 3/04/2010
O livro de Raymond Bernard é já um clássico para iniciantes do ocultismo. Isto, sem ser ocultista. A Terra Oca (The Hollow Earth, no original) é especial pelo caráter introdutório com que levanta uma tese e pelo aspecto ingênuo com que a defende. Recorrendo a uma bibliografia que remonta a duas outras teses anteriores, a de William Reed (Phantom of the Poles, 1906) e a de Marshall Gardner (A journey to the Earth’s interior, or Have the poles really been discovered?, 1920), o livro apresenta a um fictício leitor cético o argumento de que a Terra, na verdade, não seria cheia de magma no seu interior, e sim oca.
Bernard tem seus méritos: a leitura é plana e breve, sem grandes elocubrações teóricas. Mas, justamente por isso, o tom avança perigosamente pelo panfletarismo das teorias conspiratórias. Plenamente justificável pelo momento em que foi escrito, A Terra Oca se apóia nas meias verdades quase esotéricas da Guerra Fria, usando a disputa entre EEUU e CCCP para justificar o sigilo em torno do assunto. Hoje as teorias conspiratórias perderam seu glamour, e, por isso mesmo, talvez a Teoria da Terra Oca já encontre resistência no seio de seus próprios partidários. Parece pouco plausível acreditar num ambiente obscurantista na era dos satélites e da internet.
Ainda assim, ainda que se sustentasse, a Terra Oca possui alguns “furos” interessantes. O mais curioso me aponta para a relação entre o deslocamento das placas tectônicas que tanto têm gerado hoje constantes terremotos e o interior oco de um planeta. Não continuariam as placas por este interior? As críticas à teoria levantada por Bernard, no entanto, não devem ser ingênuas no sentido de procurar simplesmente desacreditá-la. Há quem caia neste erro. Contudo, quem o faz simplesmente passa ao largo pelo fato de que a Terra Oca não é uma ideia meramente conspiratória, defendida em tempos de Guerra Fria por um autor rosacruciano como Bernard. Houve figuras muito mais palatáveis e “esclarecidas” que trabalharam em sua defesa. Halley é só um destes luminares. Juntamente com Verne e Poe, na literatura. E tantos outros, cada qual à sua maneira.
Independentemente de a Terra ser ou não oca fisicamente, há fenômenos sobre os quais ainda não temos conhecimento suficiente para rejeitarmos hipóteses alternativas. E esta é a principal virtude de Bernard. Ele não se dá por vencido. Ao falar sobre as auroras boreais e austrais, por exemplo, o autor abre portas para questões que àquela época, em pleno início da corrida espacial, ainda se sabia muito pouco. A relação da aurora com os polos magnéticos, na Terra como em outros planetas (e Saturno é só mais um exemplo) ainda (deve) desperta(r) atenções.
No fim, embora Bernard exagere na defesa de suas ideias, repetindo-as à exaustão e avançando lenta e confiantemente num esforço de convencimento ao leitor, há um questionamento filosófico muito mais premente do que as próprias pontuações cientificistas que o autor indica. E o matemático Mostafa Abdelkader é quem parece mais se aproximar desse espírito. Abdelkader formula uma explanação teórica simplesmente irrefutável para apontar que a Terra pode ser oca, sim, e que nós podemos estar vivendo em seu interior. Parece mais uma proposta absurda num mar de ingenuidades, mas Abdelkader não tem nada de ingênuo. Em sua formulação, o universo inteiro está contido no interior da Terra e tudo o que enxergamos como se estivesse do lado de fora está na verdade do lado de dentro. Intrigante? É como se, séculos depois de Copérnico ter virado Ptolomeu às avessas, nós estivéssemos de volta ao geocentrismo, só que, desta vez, pelo lado de dentro. Dá pra imaginar um universo de Terras contendo infinitos universos cada uma?

